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O dia em que estive no escritório de Zaha Hadid

Em 31 de maeço relembramos com muito pezar o falecimento de Zaha Hadid, grande ícone da arquitetura mundial.
E para não passar em branco, vou repostar o texto que escrevi para a revista digital Ci9arch, publicado em 07/06/2016. 
Confira a publicação original em ZHA - Uma visita cheia de emoção

Foto: extraída da internet.
(Para cego ver: no plano principal da imagem está Zaha Hadid, mas foto mostra apenas acima do seu busto. Ela veste uma roupa preta de gola com detalhes em riscos brancos, contornando a gola. O cabelo esvoaçando, sorrindo, olhando para o lado. Ao fundo um homem branco com camisa azul escuro e paletó preto. Pessoas ao redor indicam um local movimentado.)



Aquele não seria um domingo comum. Não seria para nós e muito menos para a equipe do escritório Zaha Hadid Architects, a qual nos receberia para uma visita técnica após tão pouco tempo da notícia que havia abalado a todos.

No dia 10 de abril deste ano, em mais uma manhã cinza na cidade de Londres, o nosso grupo se dirigia para a tão sonhada visita a um dos maiores escritórios de arquitetura do mundo, fundado em 1987 pela arquiteta iraquiana Zaha Hadid. 
Foto: acervo pessoal da autora
(Para cego ver: na foto a autora do texto, Bárbara, vestindo um casaco marrom, expressando leve sorriso. Ao fundo, um muro de tijolos aparentes bem envelhecidos. Colada no muro, um pouco acima da cabeça da autora, uma placa retangular simples e toda preta, escrito em letras garrafais brancas "Zaha Hadid Architects".) 

Aquela manhã seria cinza de qualquer forma, independente do clima da cidade, porque 10 dias antes de estarmos ali havíamos recebido a chocante notícia do falecimento de Zaha. E em meio a tantas notícias e especulações em torno de sua morte, naquele dia soubemos, através de sua própria equipe, que não só o mundo teria sido pego de surpresa, mas todos eles também. No dia anterior à sua morte os seus parceiros de trabalho receberam a notícia de sua internação e estado grave, para no dia seguinte serem comunicados que jamais estariam na presença de sua mentora novamente.
Mesmo diante disso e notoriamente abalados com a recente perda, fomos muito bem recebidos por dois arquitetos efetivos do escritório: a portuguesa Clara e o brasileiro Leonardo, que fazem parte do quadro da empresa há 20 anos e 8 anos, respectivamente. A nossa visita estava programada para 50 minutos de duração, mas acabou durando praticamente uma manhã inteira. Foram 3h de uma visita que acabou sendo muito agradável a todos os presentes.
A chegada ao edifício sede do escritório da renomada Zaha Hadid já causou o primeiro impacto. Conhecida por sua arquitetura orgânica, imponente e uso abundante de estruturas metálicas retorcidas com fechamentos em vidro, o berço de suas criações é uma edificação antiga, pertencente ao patrimônio histórico de Londres, com fachada em tijolo aparente e portão de ferro pintado em preto, além de uma singela placa, também em preto, fixada no muro externo da edificação. E tendo sido a nossa visita tão recente após o falecimento da arquiteta, a única coisa que encontramos diferente da rotina do escritório foram as flores e mensagens deixadas logo após o portão principal, em homenagem à Zaha e em solidariedade à sua família.

Foto: acervo pessoal da autora
(Para cego ver: na foto Bárbara aparece de casaco marrom escrevendo num livro grande, de folhas brancas, sobre uma mesa de vidro transparente. Também sobre a mesa jarro de vidro e muitas flores brancas.)


Ao passar pelo portão, seguimos em um percurso estreito entre os volumes que compõe a edificação até chegar a uma espécie de hall a céu aberto, onde encontramos a porta principal de acesso à recepção do escritório. Nada diferente do que estávamos vendo até então, a mesma leitura do edifício histórico se apresentaria para nós no interior da edificação. Instalações elétricas aparentes em um pé-direito alto. Tudo branco: paredes, teto, mobiliário; além de várias maquetes confeccionadas em diferentes materiais, expostas em cúpulas de acrílico e espalhadas por toda a sala. Esta foi a segunda sala do edifício a ser adquirida por Zaha Hadid, na sua primeira expansão do escritório.
A primeira sala, chamada até hoje como Studio 9, está localizada no primeiro andar da edificação e foi onde tudo começou. Originalmente, o edifício havia sido uma escola de educação primária londrina, com ensino tradicional, onde as crianças são separadas por sexo. Após o fechamento da escola, a edificação foi transformada em um centro empresarial e as antigas salas de aula passaram a ser vendidas como salas comerciais. Mas pouco tempo após sua fixação nesse studio, o escritório rapidamente aumentou sua produção e Zaha Hadid precisou expandir para o Studio 2 (localizado no térreo da edificação, por onde acessamos à recepção) e continuou expandindo para as salas vizinhas, até deter integralmente todas as salas da antiga escola primária.
Seguimos percorrendo as salas, sendo apresentados à estrutura física do escritório. São corredores, escadas internas e salas de produção repletas de estações de trabalho com computadores e materiais para confecção de maquetes físicas, como chamamos no Brasil. Nessas salas as equipes são divididas de acordo com os setores mundiais em que projetos estão sendo desenvolvidos: sala dos italianos (onde são elaborados os projetos para Itália), sala do Oriente Médio (onde trabalhavam desenvolvendo projetos para esta região) e assim por diante.
Durante a apresentação desses setores e nosso percurso por entre as salas, uma frase quase que escapou por entre os lábios da arquiteta que nos acompanhava: “A Zaha tinha muita vontade de começar os projetos na América Latina e tinha muita esperança de ver construído o projeto para o Rio de Janeiro”. Todos suspiraram! Naquele momento também descobriríamos que o projeto de Zaha Hadid para a orla de Copacabana, no Rio de Janeiro-RJ, ainda está em processo de análise por parte da Prefeitura da cidade. O órgão quer o recuo, mas ela era ousada demais para projetar um edifício igual à sua vizinhança. Feliz por saber de seu sonho em executar um de seus projetos no Brasil e triste por lembrar que ela não viveu para contemplar mais esta obra.  
Difícil explicar tamanha emoção em ter vivido tudo isso em poucas horas. Difícil explicar a emoção de estar diante da cadeira onde sentava a única mulher a receber o prêmio Pritzker Architecture (considerado o prêmio Nobel da arquitetura) sabendo que ela não mais estaria ali. 

                                                              Foto: acervo pessoal da autora
(Para cego ver: na foto Bárbara aparece em pé, trajando casaco marrom, numa sala branca, com as mãos sobre o encosto de uma cadeira preta. Atrás dela uma escultura mais alta que a autora, em material plástico, sendo metade branca e metade preta, dividida na vertical.)

Porém uma informação que nenhum de nós tínhamos e, certamente, muitos ainda não têm, nos serviu de consolo: Zaha Hadid tinha um sócio, Patrick Schumacher, a quem depositava total confiança para conduzir os projetos e a equipe, seguirá não só com o escritório, mas com o legado da nossa diva!

Foto: Patrick Schumacher (extraída da internet)
(Para cego ver: na foto um homem com paletó preto e camisa preta. Na camisa um detalhe em linhas brancas por dentro de onde ficam os botões. Ele está olhando fixamente para a foto, com um leve sorriso no canto da boca.) 

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